Voltei de Atenas no dia 25 de julho. Folguei nos dias 26 e 27. Retornei ao trabalho no dia 28 e desde então… bom… continuo no trabalho.
Entro, hoje, no 23ª dia de labuta praticamente ininterrupta (só tive um dia de folga). Culpa dos Jogos Olímpicos de Cumbica - afinal, o repórter que não viaja para a Olimpíada se ocupa, basicamente, dos embarques e desembarques dos atletas brasileiros. Nem sempre (ou quase nunca) com boas notícias a dar.
Minha estréia na Olimpíada de Guarulhos foi no retorno do judoca João Derly. Além da triste eliminação do brasileiro bicampeão mundial, houve a constrangedora situação causada pelo algoz português Pedro Dias, que acusou Derly de ter colocado uns chifrinhos no seu cucuruto. Aí, o cidadão chega em São Paulo depois de 30 horas de viagem, deprimido pela derrota, reencontra a mulher (que segurou bem a onda, mas que certamente estava puta com o ocorrido) e você ainda tem que perguntar se ele pegou ou não a mulher alheia? Triste.
Voltei a Cumbica para comemorar as três medalhas de bronze do judô, com Ketleyn Quadros, Tiago Camilo e Leandro Guilheiro. Esse dia até que foi normal - menos se não tivesse passado por uma jornada de 13 horas de trabalho no dia anterior, passeando entre Santa Bárbara d’Oeste e Campinas, atrás da família do César Cielo. A família é uma gracinha, vovó Olga, tia Paula, tio Paulo… adorei todos eles, que me trataram muito bem. Mas fico pensando: do nada, uma família é obrigada a abrir as portas de suas casas, ceder seus números de telefone, falar da intimidade para um bando de repórteres ávidos e, muitas vezes, revoltados por estarem falando com os parentes e não com o medalhista, já que não foram para os Jogos. E posso dizer: muitos são extremamente mal-educados, mandando e desmandando na casa alheia. Uma falta de bom-senso enorme.
Quando, na sexta-feira à noite, comemorei aos pulos (no Outback do Shopping Bourbon) a medalha de ouro de Cielo, nem me dei conta que toda a chatice posterior à sua vitória cairia na minha conta. Bobinha. O périplo pelo interior paulista (que começou às 6h da manhã e terminou às 19h) foi só o início. O fim (espero) foi ontem, com uma via-crúcis que começou em Cumbica (de novo!)
Apesar da demora do nadador na entrevista coletiva - e de todas as perguntas imbecis que fizeram a ele, como o embaraçoso questionamento sobre sua vida sexual -, o pior foi a constrangedora carreata no carro do Corpo de Bombeiros. Acho esse artifício, numa cidade tão problemática como São Paulo, um grande absurdo. Lembro-me de quando o São Paulo foi tricampeão mundial (ah, que alegria) e o passeio de Guarulhos ao Morumbi demorou horas. É imperdoável.
Cielo parou ‘apenas’ as avenidas Tiradentes, 23 de maio, Paulista, Rebouças e Faria Lima. Um horror. O menino merece todas as nossas homenagens, mas essa foi forçada. Chegando no clube Pinheiros, um aproveitador Gilberto Kassab, em plena campanha, recebia o medalhista. E uma pirralhada atrapalhava o trabalho da imprensa durante a segunda coletiva do dia - falha do Pinheiros, que permitiu a entrada das crianças e de um monte de sócios que só queriam comer as coisas gostosas que a imprensa faminta quase não conseguiu aproveitar.
O ápice da bizarrice: uma menininha linda, loirinha, de roupão e maiozinho do Pinheiros, se esgueirava entre os tripés das câmeras para chegar mais perto da mesa onde Cielo concedia entrevista. Obviamente, ela esbarrou em um dos tripés e uma das câmeras, também, obviamente, balançou. O cinegrafista da Band, talvez alucinado pela fome, talvez alucinado pelo cansaço, talvez apenas alucinado por natureza, gritou com a menininha: ‘Ô menina, você não pode fazer isso não!’. E bufafa. Eu, que estava sentada no chão, abaixo das câmeras, fiz o papel de boazinha. Passei a menina de um lado para o outro e dei o conselho: ‘Fica aqui quietinha pra não atrapalhar o tio.’ Ah, o espírito olímpico finalmente surgiu, no encerramento de mais uma prova de 12 horas de obstáculos dos participantes dos Jogos Olímpicos de Cumbica.