Voltei de Atenas no dia 25 de julho. Folguei nos dias 26 e 27. Retornei ao trabalho no dia 28 e desde então… bom… continuo no trabalho.

Entro, hoje, no 23ª dia de labuta praticamente ininterrupta (só tive um dia de folga). Culpa dos Jogos Olímpicos de Cumbica - afinal, o repórter que não viaja para a Olimpíada se ocupa, basicamente, dos embarques e desembarques dos atletas brasileiros. Nem sempre (ou quase nunca) com boas notícias a dar.

Minha estréia na Olimpíada de Guarulhos foi no retorno do judoca João Derly. Além da triste eliminação do brasileiro bicampeão mundial, houve a constrangedora situação causada pelo algoz português Pedro Dias, que acusou Derly de ter colocado uns chifrinhos no seu cucuruto. Aí, o cidadão chega em São Paulo depois de 30 horas de viagem, deprimido pela derrota, reencontra a mulher (que segurou bem a onda, mas que certamente estava puta com o ocorrido) e você ainda tem que perguntar se ele pegou ou não a mulher alheia? Triste.

Voltei a Cumbica para comemorar as três medalhas de bronze do judô, com Ketleyn Quadros, Tiago Camilo e Leandro Guilheiro. Esse dia até que foi normal - menos se não tivesse passado por uma jornada de 13 horas de trabalho no dia anterior, passeando entre Santa Bárbara d’Oeste e Campinas, atrás da família do César Cielo. A família é uma gracinha, vovó Olga, tia Paula, tio Paulo… adorei todos eles, que me trataram muito bem. Mas fico pensando: do nada, uma família é obrigada a abrir as portas de suas casas, ceder seus números de telefone, falar da intimidade para um bando de repórteres ávidos e, muitas vezes, revoltados por estarem falando com os parentes e não com o medalhista, já que não foram para os Jogos. E posso dizer: muitos são extremamente mal-educados, mandando e desmandando na casa alheia. Uma falta de bom-senso enorme.

Quando, na sexta-feira à noite, comemorei aos pulos (no Outback do Shopping Bourbon) a medalha de ouro de Cielo, nem me dei conta que toda a chatice posterior à sua vitória cairia na minha conta. Bobinha. O périplo pelo interior paulista (que começou às 6h da manhã e terminou às 19h) foi só o início. O fim (espero) foi ontem, com uma via-crúcis que começou em Cumbica (de novo!)

Apesar da demora do nadador na entrevista coletiva - e de todas as perguntas imbecis que fizeram a ele, como o embaraçoso questionamento sobre sua vida sexual -, o pior foi a constrangedora carreata no carro do Corpo de Bombeiros. Acho esse artifício, numa cidade tão problemática como São Paulo, um grande absurdo. Lembro-me de quando o São Paulo foi tricampeão mundial (ah, que alegria) e o passeio de Guarulhos ao Morumbi demorou horas. É imperdoável.

Cielo parou ‘apenas’ as avenidas Tiradentes, 23 de maio, Paulista, Rebouças e Faria Lima. Um horror. O menino merece todas as nossas homenagens, mas essa foi forçada. Chegando no clube Pinheiros, um aproveitador Gilberto Kassab, em plena campanha, recebia o medalhista. E uma pirralhada atrapalhava o trabalho da imprensa durante a segunda coletiva do dia - falha do Pinheiros, que permitiu a entrada das crianças e de um monte de sócios que só queriam comer as coisas gostosas que a imprensa faminta quase não conseguiu aproveitar.

O ápice da bizarrice: uma menininha linda, loirinha, de roupão e maiozinho do Pinheiros, se esgueirava entre os tripés das câmeras para chegar mais perto da mesa onde Cielo concedia entrevista. Obviamente, ela esbarrou em um dos tripés e uma das câmeras, também, obviamente, balançou. O cinegrafista da Band, talvez alucinado pela fome, talvez alucinado pelo cansaço, talvez apenas alucinado por natureza, gritou com a menininha: ‘Ô menina, você não pode fazer isso não!’. E bufafa. Eu, que estava sentada no chão, abaixo das câmeras, fiz o papel de boazinha. Passei a menina de um lado para o outro e dei o conselho: ‘Fica aqui quietinha pra não atrapalhar o tio.’ Ah, o espírito olímpico finalmente surgiu, no encerramento de mais uma prova de 12 horas de obstáculos dos participantes dos Jogos Olímpicos de Cumbica.

A pergunta foi do meu pai, como sempre. Pelo menos isso eu sei: basquete é o da cesta; vôlei, o da rede. Também sei que o Brasil esteve fora das duas últimas Olimpíadas no basquete masculino, tendo sido bicampeão olímpico de vôlei na edição de Atenas, há quatro anos. No basquete, uns caras tipo Wlamir Marques, Rosa Branca, Oscar e Marcel levaram o Brasil a um lugar de reconhecimento. E isso é tudo, gastei meu repertório.

É difícil fazer uma cobertura com algo que não se tem a mínima familiaridade. Mas jornalismo é isso: você sabe um pouco de cada coisa, descobre umas historinhas interessantes e vambora. Fui pra Belo Horizonte, ano passado, cobrir a Copa do Mundo de Natação sabendo que era o Thiago Pereira e olha lá. Agora, até consigo trocar algumas palavras sobre o assunto.

Agora, em Atenas, estou me familiarizando com o assunto da bola laranja, esporte que nunca acompanhei na vida - basquete me deixa muito estressada, aquela sucessão de pontos, a indefinição… isso me mata. Sou cartesiana, oras. Meu primeiro desafio: saber quem era quem na seleção. Simplesmente, o único rosto familiar para mim era do técnico, Moncho Monsalve. Nessa hora, Leandrinho, Nenê e Varejão-com-seu-perucão fazem uma falta… Um intensivão de dois treinos, no domingo, meio que já resolveu o problema.

Ainda no sábado, fui até o hotel em que todas as seleções estão hospedadas. E aí cai na ‘real Greece’, onde os taxistas não falam inglês e te confrontam com os mais bizarros costumes locais.

Táxi, neste país, não é sinônimo de transporte particular. Pelo contrário: é uma bela lotação. Os caras param para qualquer pessoa na rua que dê sinal - esteja o carro vazio ou não. Indo para o hotel da seleção, o cara - que parecia o Davi, motorista do Estadão - parou para uma tiazinha gorda que entrou no banco de trás, ao meu lado. Ela começou a falar em grego comigo. E aí foi a confusão, porque logo depois o Davi grego parou para pegar outra mulher, que sentou no banco do passageiro.

Até que eu sou bem sociável, embora não fale grego. O problema é que, quando você divide o táxi, os caras não te dão recibo - tecnicamente, quando você desce primeiro, a corrida ainda não terminou. Já estou prevendo os muitos euros que vou ter que tirar no meu bolso para pagar esse tipo de coisa.

Outro problema: o taxista pode descaradamente se recusar a te levar para onde você quer ir. Se você não está indo para onde ele quer ir, problema é seu. Ele te deixa na mão. Alguns até respondem negativamente, mas outros simplesmente arrancam com o carro sem falar uma palavra. Ontem, um tiozinho disse que não poderia ir até a Arena Olímpica porque precisava fumar. Pode? É pior que taxista carioca. Pelo menos, no Rio, com algum esforço, você consegue entender o que eles estão falando. Aqui, nem isso.

Sumi de novo. O motivo pode ser conferido em duas páginas do jornal de hoje. E isso porque o Pré-Olímpico sequer começou.

Contrariando as previsões de Livio Oricchio, minha viagem São Paulo - Roma - Atenas foi feita na maior tranqüilidade. Ainda bem. Minha mala chegou bonitinha, não apanhei de nenhum(a) comissário(a) italiano(a) maluco(a) e o roteiro da viagem foi rigorosamente seguido. E até consegui um lugar no corredor no trecho até a Itália, porque ficar 10 horas encaixotada na janelinha não dá.

Assisti três filmes durante o vôo: Elizabeth - A era de ouro; Leões e cordeiros; Amor em jogo. Ou seja: não fechei os olhos durante a viagem e fiquei 36 horas direto, sem dormir. Pelo menos, entrei no fuso grego (de mais seis horas em relação a Brasília) no primeiro dia.

A Alitália serviu comidinhas, mas o destaque fica para o suco de laranja que parece Ki-suco de morango. Que coisa horrorosa! E o ar condicionado fortíssimo do avião me causou uma enorme dor de garganta (com a qual estou sofrendo até agora).

Cheguei em Roma por volta das 6 horas da manhã locais (1h da manhã no Brasil). Um ‘aerotrem’ te leva do desembarque até o prédio principal do aeroporto. Interessante foi ver o grande número de brasileiros se acotovelando para entrar no trenzinho - havia um grande grupo, vindo de Belo Horizonte, que seguiria até Damasco, na Síria. Me lembrou um pouco a estação Sé…

De Roma a Atenas, um pouquinho de atraso, mas nada muito problemático. E consegui chegar na Grécia por volta do meio-dia local, seis da manhã no Brasil (entre a Itália e Grécia há a diferença de uma hora, porque nesta terra dos deuses estamos no horário de verão).

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Para minha sorte, encontrei um repórter brasileiro ainda em Guarulhos que também vinha para Atenas. E foi com ele que dividi o primeiro táxi. Tivemos sorte de encontrar um motorista simpático e fluente em inglês. O nome dele? Não sei, mas ele disse que se chamava Bill. A-hã.

O cara é fanático por basquete. E também adora futebol. Torcedor do Panathinaikos, estava impressionado com a contratação de Gilberto Silva (coitado…). E desceu o pau em Flávio Conceição, que passou pelo mais popular time grego. “Depois de seis meses, a torcida ia ao treino e pedia para ele ir embora.” Como futebol é futebol em qualquer parte do mundo, o volante brasileiro foi demitido e sei lá por onde anda hoje. Bill também está preocupado com a contratação do lateral Gabriel. Veio aquela dor na consciência: “será que falo a verdade?”, pensei. Diplomaticamente, dei uma opinião genérica, do tipo “ah, não é craque, mas também não compromete”. Na verdade, menti. Mas deixa pra lá.

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A chegada ao hotel foi simples, fácil e tranqüila. A recepcionista grega, quando viu meu passaporte, deu pulinhos de alegria: “Eu ainda não fui ao Brasil, mas o Brasil veio até mim!”. A moça está guardando uma grana para ir até o Rio. Usei a tática antes testada com o taxista Bill. Fui genérica. Acho que as notícias correm o mundo e eu não preciso ficar fazendo anti-propaganda.

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Como tudo ia bem demais - vôo sem atraso, chegada tranqüila ao hotel, Amanda e gregos comunicando-se em inglês com perfeição -, alguma coisa tinha que dar errado. E o problema foi, claro, no credenciamento. Não antes ser, pela primeira vez, roubada por um taxista (básico!). O mano grego me cobrou 25 euros (o que é muito dinheiro!) do hotel até a Arena Olimpíca. Maldito serviço de rádio-táxi! Na volta, em um táxi apanhado na rua, paguei sete euros. 

Mas o fato é que, chegando no credenciamento, não acharam meu nome. Minha inscrição foi feita em cima da hora, afinal, trabalho num jornal, e as coisas acontecem assim mesmo - é a síndrome do fechamento. A confusão serviu para que eu fizesse amizade com toooodos os assessores de imprensa. E também para gastar o espanhol como a Cristina, mocinha simpática que me disse que nas escolas gregas, além do idioma oficial do país, os greguinhos aprendem inglês, alemão e francês. Igualzinho o Brasil.

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Vejam bem: escrevi tudo isso e ainda era sábado. Obviamente, fiz tudo sem almoçar e meu jantar foi um cheeseburguer. Só tive tempo de tomar banho e beleza. O credenciamento foi resolvido depois de umas duas horas e eu finalmente consegui tomar uma providência acerca do meu alvo preferencial nesta cidade: a seleção brasileira masculina de basquete. O que contarei em seguida, porque este post já está grande demais.

Por um momento, achei que gregos tinham cara de chilenos. Até a hora em que resolvi buscar uma tomada para carregar um pouquinho da bateria do laptop. Sentei perto dos ‘gregos’. Como eles falam espanhol, acho que eles são mesmo chilenos.

Só me causa espanto o número de chineses que estão neste vôo. Por que eles estão em todas as partes?

Esse é o último texto em solo brasileiro até o dia 25. O próximo será apenas em solo grego. E que solo!

Quase dois meses depois, eu voltei. O motivo do sumiço? Simples. São Paulo Futebol Clube.

Durante todo esse período pós-eliminação da Libertadores até o encerramento desta gloriosa 10ª rodada do Campeonato Brasileiro, acordava todos os dias (com exceção de segunda e quinta-feira) às 7h30 para estar no CT da Barra Funda às 9h. Com um tempo de permanência na redação de cerca de 12 horas/dia, é de se esperar que eu não tivesse a mínima vontade de escrever aqui.

Mas, por motivos de força beeem maior, não continuarei como setorista do São Paulo, o que lamento muito. Infelizmente, nem sempre se pode ter aquilo que se deseja - pelo menos, não de maneira imediata. “O homem não teria alcançado o possível se, repetidas vezes, não tivesse tentado o impossível”, disse o professor Aldo Fornazieri, sábado passado, no encerramento do nosso semestre de teoria política. A frase, meio com cara de auto-ajuda, é do sociólogo alemão Max Weber.

Frustração à parte, deixo mais uma vez a rotina futebolística. No ano passado, o caminho era o Pan do Rio. Desta vez, embarco nesta sexta-feira para Atenas, na Grécia, onde poderei presenciar um momento histórico: imaginem só se a seleção operária de Moncho Monsalve consegue uma das três vagas do torneio masculino de basquete na Olimpíada de Pequim?

Deixo São Paulo no início da tarde da sexta para chegar a Roma no início da manhã de sábado na Europa (ainda madrugada no Brasil). Depois, conexão rumo a Atenas. Volto apenas no dia 24. Na medida do possível, coloco as impressões da Grécia aqui. Vale lembrar que essa é a minha primeira viagem ao exterior de verdade (ir para a Argentina, que nem fuso horário diferente tem, não conta, vai?).

Livio Oricchio, que com muita sorte nessa vida posso chamar de amigo, me deu algumas dicas: a Alitalia vai perder sua mala, seu vôo vai atrasar e você será maltratada pelos comissários. Ele viajou, ao menos duas vezes por mês, nos últimos 15 anos. Deve entender alguma coisa dessa história. Então, boa sorte para mim.

Não bastasse a dor de garganta, a dor de cabeça e a dor no corpo, deixei a redação, quase às 2h da manhã de hoje, com uma baita dor no coração. Aqui não sou jornalista, sou eu, então posso me lamentar quanto quiser: o São Paulo não merecia um golpe tão duro.

Claro que a diretoria montou um time de aluguel, que o Muricy demorou para acertar a equipe, que o Rogério Ceni tem sido cada vez mais frangueiro… mas, puxa! Gol aos 46 minutos do segundo tempo? Não merecia.

Na hora, só pude lembrar do Mineirão, do Cruzeiro, da barreira, do Axel… Voltei a 2000. Aos 44 minutos do segundo tempo, gol de falta de Geovanni. Eram tempos de vacas magras, o São Paulo não ganhava nada, o técnico era o Levir Culpi (cruzes!) e um dos nossos atacantes, Sandro Hiroshi (mamãezinha…).

Também veio à minha cabeça, assim que terminei a crítica do jogo e soltei a retranca, a pior noite da minha vida, em Porto Alegre, no ano passado. Sair da cabine rumo ao vestiário no meio da torcida gaúcha, a truculência dos seguranças do Olímpico, o clima de tragédia no clube, a insegurança do que ia acontecer. A cerveja em um bairro X da cidade, que nem me lembro, onde só havia gremista. E a dor de estômago que me acompanhou durante toda aquela madrugada - o medo do futuro, de levar furos (era a primeira vez em que eu cobria o time fora de São Paulo, era a primeira vez em que eu - achava - ser setorista).

Estou me sentindo a jornalista mais pé-fria do universo. Um ano depois, a história se repete. Não senti ainda o peso da tragédia - não fui ao Rio, não estive no vestiário. Só vou ver o que acontece daqui a pouco, no desembarque em Congonhas. E aí, na segunda vez em que - acho - sou setorista, tudo se repete.

Estou particularmente triste porque tinha algumas matérias na manga sobre o clube. Mas eram matérias relativamente positivas - uma delas diretamente ligada ao técnico que, sei lá, pode nem continuar sendo técnico do time. Agora começam as especulações, os chutes, as cornetas. Um horror. A derrota de ontem foi pessoal e profissional. Estou muito, muito triste.

Eu nunca pensei que fosse ter raiva ao entrar num local e visse as demarcações de um campo de futebol. Mas senti isso ao entrar no Icaro de Castro Mello (sim, eu ainda estou falando de atletismo). Aliás, caros leitores, vocês sabem quantas pistas decentes temos nesta cidade, a mais rica do Brasil? Uma. Sim, uma. Apenas uma e não se fala mais nisso. E onde ela se encontra? Quem falar Ibirapuera, ganha um doce.

Mas, sabe como é… não bastassem todos os espaços nesta capital dedicadas à pátria de chuteiras, o Governo Estadual do senhor José Serra fez questão de colocar jogos de futebol - leia-se partidas de times amadores, sindicais e assim por diante - no gramado do Icaro de Castro Mello. A brilhante idéia deve-se ao brilhante secretário estadual de Esportes, Lazer e Turismo, o relevante Claury Santos Alves da Silva (PTB).

Talvez o pessoal da cidade de Ourinhos pode dar boas referências sobre esse cidadão, afinal, ele foi prefeito por lá. Eu, particularmente, precisei fazer uma pesquisa no Google para encontrar outros parâmetros. Descobri que quando foi escolhido para ser secretário, era superintendente do Trabalho Artesanal nas Comunidades (Sutaco). É advogado. Tem 48 anos.

Ele pode ser legal, ser simpático, até torcer para o São Paulo. Mas fez um absurdo com o Ibirapuera e provou que não entende piciroca de esporte. Na calada da noite, enquanto todo o mundo do atletismo estava no Pan do Rio, ele ordenou a seguinte intervenção: mudou de lado (transferiu do lado direito para o lado esquerdo do campo) a gaiola de lançamentos. Isso, para instalar traves. Como se não bastasse, a modificação tirou o certificado que a pista tinha pela IAAF, a entidade mundial que rege o atletismo. É mole?

O governo do Estado nunca fez nada pelo Ibirapuera (vide o ginásio e suas goteiras). Aquilo só começou a funcionar direito quando a BM&F assumiu o local como base de suas equipes. Reformou, fez uma bela pista e colocou um monte de atleta de ponta para treinar lá. Duro é ver gente como Maurren Maggi, Fabiana Murer, Keila Costa ou o campeão mundial do salto em distância, o panamenho Irving Saladino, disputar espaço com um monte de peladeiro.

Eu adoro futebol, é meu esporte preferido e todo mundo sabe. Mas se tem uma outra modalidade que me encanta enormemente e me faz perder horas (muito mais do que 90 minutos) em plena observação é o atletismo. Não me lembro exatamente como comecei a gostar dos saltos, das corridas e dos lançamentos. É coisa bem recente, gosto que adquiri no trabalho como o esporte. Ou seja: admiração obtida há menos de três anos.

Hoje passei toda a manhã e o começo da tarde no Estádio Icaro de Castro Mello, no Ibirapuera. O título bizarro deste post se explica pela aparência do meu rosto depois de alguns horas sob um sol implacável. Tipo assim, eu fiquei que nem um guaxinim, só que no negativo (o bichinho tem os olhos escuros e o resto do rosto claro. Eu, com meus belos óculos escuros, ganhei um bela máscara).

Ainda que fosse uma competição simples, um torneio da Federação Paulista, sem grande apelo midiático como devem ter os GPs que acontecerão em cinco cidades brasileiras em maio (pelo menos devem aparecer no Esporte Espetacular), um sem número de atletas importantes estava lá hoje, competindo, correndo atrás de seus objetivos.

Em uma manhã aparentemente besta, vi o velocista André Domingos voltar a correr bem, depois de ter sido envolvido em um caso de duplo homicídio em Presidente Prudente, no ano passado (leiam o Estadão de hoje, hein?). E quando o sol estava a pino e, confesso, a fome, a sede e o cansaço tomavam conta de mim, só tive tempo de reparar, junto com o Jonne (o fotógrafo que chorou quando o Vanderlei foi campeão da maratona no Pan de Santo Domingo, em 2003… hahahahaha), que um atleta pulava, vibrava, esperneava de tanta felicidade.

Competição de atletismo é assim… um monte de coisa acontecendo ao mesmo tempo. Do nada, percebemos que o Jefferson Sabino tinha conseguido o índice para a Olímpiada no salto triplo - uma bela marcona de 17,28 m (a 4ª melhor do mundo no ano, sendo que o líder do ranking, um cubano, tem 17,50 m). Jefferson conseguiu essa marca no segundo salto.

Passada a euforia, ele foi para a terceira tentativa, que seria também a última. E foi mesmo. Jefferson ganhou o acompanhamento de palmas dos poucos presentes (em resumo, os colegas que estavam assistindo a competição), disparou correndo em direção à caixa de areia, saltou e, na primeira passada do salto, foi com a mão na coxa esquerda. Um pequeno ‘aaaaaahhhh’ soou lá pelas 13 horas no Ibirapuera. Dando pulinhos, caiu na areia e se jogou no chão. Da euforia à tensão em coisa de 10 minutos (enquanto isso, nas raias ao lado, as meninas disputavam as finais dos 100 m rasos).

Jefferson sofreu uma lesão e precisou ser carregado para a área médica do estádio. Um cara da Rede Atletismo, ou seja, da equipe  ’adversária’ (Jefferson é atleta da BM&F), sem que ninguém solicitasse, saiu correndo com um saco de gelo - não, ninguém jogou gás nenhum ou tripudiou da desgraça alheia. O saltador, deitado de bruços na areia, foi virado com dificuldade e ganhou o gelo na área atingida. Outros cinco caras - um deles era o médico - içaram o saltador do chão. Não foi fácil, afinal, ele é um negão tipo Jadel Gregório, sabem? Porque no atletismo a coisa é assim: os caras matam uns cinco leões por dia, mas não tem maqueiro nem carrinho de golfe pra tirar um atleta da área de competição.

No fim das contas, a lesão de Jefferson não foi grave e ele deve ficar um mês parado. É um atleta jovem, tem 25 anos, e ainda pode melhorar. Por uma dessas ironias do destino, se machucou justamente no dia em que conseguiu sua melhor marca pessoal. O salto triplo é uma escola que nunca se esgota. Foi assim com o são-paulino Adhemar Ferreira da Silva, com Nelson Prudêncio, com João do Pulo e agora com Jadel Gregório (que, na terça, recebe a Ordem do Rio Branco, concedida pelo Itamaraty).

Então tá: o Palmeiras foi para a final do Campeonato Paulista. Jogou melhor durante a primeira fase do torneio do que a maioria das outras equipes, é verdade. Nas semifinais, não tenho tanta certeza. No primeiro jogo, as coisas tomaram o rumo que tomaram depois do gol de mão do Adriano. Neste domingo… bom, eu vi o Palmeiras chutar duas bolas no gol do Rogério Ceni (que, aliás, havia muito que não jogava tão mal). Acertou uma, por mérito do Léo Lima, que não tem medo de tentar, e por erro de Hernanes também, que saiu da linha da bola. No segundo tempo, o São Paulo foi guerreiro e lutou muito. Marcos, São Marcos, o cara que eu sempre quis no meu time, fez defesas sensacionais. Não me lembro de a bola ter ido muitas vezes para a área são-paulina, com exceção do gol de Valdivia (cujo mérito, convenhamos, não foi dele).

Só não consigo engolir essa história de que o Palmeiras sempre foi favorito, superior, time de estrelas. É um time que é mais acertado. Para mim, é um time nota 7. No máximo.

O São Paulo, para mim, é nota 6. Completo. Muricy, mais uma vez, não teve culpa, convenhamos. Não jogou pelo empate. Apostou na boa partida de Dagoberto no último domingo. E o presidente Juvenal Juvêncio, por favor… a injeção de ânimo que deu na equipe durante a semana, ao dizer que nenhuma contratação, exceto a do Adriano, deu certo, era tudo o que o time não precisava. Como se a culpa não fosse dele e de seus pares.

Lamentável é que um time profissional tenha que se submeter a uma situação humilhante como a do São Paulo no intervalo. Ter o vestiário tomado por um gás misterioso com efeitos sufocantes é, no mínimo, uma atuação criminosa, seja lá de quem tenha vindo. Ouvir do Luxemburgo que a ação pode ter sido provocada pela própria equipe são-paulina é um insulto à nossa inteligência. E o que dizer do velho expediente do ‘apaga luz’? Fazia tempo que o Palestra Itália não era mais chamado de ‘boate’, desde a troca da iluminação. Vai ver que sentiram saudades. A Eletropaulo foi clara (e eu mesmo liguei lá): não houve qualquer problema com a rede que abastece a região. “O problema é exclusivamente no Parque Antártica”, disse-me o assessor de imprensa de plantão. Engraçado a luz ter acabado justamente após o gol de Valdivia, não?

Em um atitude minimamente séria da Federação Paulista de Futebol, a decisão do Campeonato Paulista não pode ser realizada no estádio palmeirense, que, comprovadamente, não tem condições de oferecer segurança àqueles que o utilizam. Um estádio obsoleto, que não comporta este tipo de situação: é só perguntar para qualquer jornalista de imprensa escrita que precisou ficar apinhado na ridícula sala de imprensa palmeirense. Aliás, a mídia escrita (jornais e sites de internet) só encontra relativo conforto no Morumbi. E, mesmo assim, não tem uma boa visão do jogo (a sala fica no mesmo nível das arquibancadas térreas), não consegue ver o que acontece no restante do estádio e não ouve muito bem o som lá de fora. Em compensação, encontra ao menos lugar para se sentar e um banheiro limpo.

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Por volta das 15h30, quando passei pela catraca do metrô Barra Funda, quase falei: “eu me rendo, eu me rendo!”. A visão de dezenas de policiais militares do Batalhão de Choque, postados em frente às roletas, com armas de bala de borrachas e aqueles escudos de ferro me deram muito, mas muito medo. Mas também uma baita sensação de segurança.

Deixei para sair mais tarde de casa, rumo ao jornal, justamente para evitar os bandidos organizados no caminho. Uso a estação Tatuapé, além da Barra Funda, locais propícios para confusões - e eu mesma já presenciei algumas.

Na sexta-feira, fui até uma reunião do 2º Batalhão de Choque, na rua Jorge Miranda, ali do ladinho do Liceu. Depois da coletiva propriamente dita, tive a oportunidade de conversar, entre ons e offs, com o tenente-coronel Carlos Botelho, comandante da ‘tropa de elite’ da PM paulista. Entre vários assuntos elucidativos, a certeza de que provavelmente uma tragédia entre as torcidas não aconteceria.

Ainda acho um absurdo ter de destacar um contingente de mais de 2 mil homens para um mísero jogo de futebol. Mas também é dever do Estado garantir a nossa segurança. Não só de torcedores que iriam ao Palestra Itália, mas também a minha, que por obrigação tinha que possivelmente dividir espaço com os vândalos. Fico feliz de saber que - até agora - nenhuma séria ocorrência foi registrada.

Torcidas organizadas, infelizmente, são um bom negócio para os clubes. Assim como, sei lá, o tráfico de drogas ou a prostituição, tem muita gente graúda que ganha com isso. Portanto, não é interessante acabar com elas. Nem tudo, também, é atribuição da PM nessa história de combater a atuação destas entidades - e nós, jornalistas, falamos muita besteira por pura falta de conhecimento. Durante o papo informal que tivemos (eu e mais dois repórteres), ten. cel. Botelho nos mostrou a Constituição várias vezes. Tive, mais uma vez, a prova de uma ignorância difícil de combater - porque é impossível saber de tudo. E também a certeza de que muitas vezes, tomados pela arrogância em não reconhecer nosso desconhecimento, acabamos sendo injustos.

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E, falando em futebol, tive o prazer de acompanhar o jogo trash entre Portuguesa e Botafogo, quarta-feira, pela Copa do Brasil, no Canindé. Bastou assistir a essa partida para ver como o Campeonato Carioca é horroroso. O time de General Severiano, que neste domingo se sagrou campeão da Taça Rio e vai disputar o título estadual com o Flamengo, jogou de igual para igual (no sentido ruim do termo) com a Portuguesa, que ficou looonge de se classificar para as semifinais do Paulista. Foi um show de horror. Ô joguinho fraco!

O que valeu foi a companhia (Alf, Galbio, Vendra) e o bizarro vestiário visitante do Canindé. Lá, ouvi Cuca dizer que “se o Muricy não deu jeito no Carlos Alberto, ninguém mais dá.” Aliás, o que é o vestiário visitante do Canindé? Para chegar lá, uma coisa meio ‘Indiana Jones’. Você entra no gramado, desce umas escadas, entra em um túnel escuro e fétido (sim, cheiro claríssimo de esgoto), continua andando por um túnel escuro e fétido, sobe umas escadas, e sai em um salãozinho embaixo das arquibancadas, bem escuro, mas, ao menos, não-fétido. Irc!

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E como já fazia quase uma semana que eu não vinha aqui, não comentei nada sobre o tal caso Isabella. É impressionante como as pessoas se mobilizam por causa de um crime cometido com uma criança anônima. Não recrimino ninguém, claro, por demonstrar revolta no caso de assassinato de uma vítima de cinco anos, morta de maneira bárbara. Mas, puxa vida, por que não usar um pouquinho dessa capacidade de mobilização e revolta para coisas realmente necessárias? Por que não usar toda essa disposição para protestar na Câmara, na Assembléia, em Brasília? Por que não? De que adianta ficar na porta de prédios em Guarulhos, ou na zona norte? Por que aceitar que um distrito policial passe o dia sem receber ocorrências (como aconteceu na sexta-feira com o 9º DP) por causa de uma tomada de depoimentos? Aliás, por que o 9º DP não passou o caso para a Divisão de Homicídios?

Aliás, que entrevista foi a do casal Nardoni para o Fantástico? Uma repetição de chavões, como “éramos uma família unida”, “a Isabella era nossa princesa”, “ela queria morar com a gente”, “nunca levantei a mão para ela”, “brigamos como qualquer casal”… respostas que só corroboravam a tese da defesa, em uma entrevista absolutamente ensaiada, sem qualquer tipo de pergunta provocativa. E que tipo de pai é esse que fala “nossa vida foi destruída” como quem diz “hoje, de manhã, fui à padaria comprar três pãezinhos”? De uma insensibilidade de dar calafrios. Brrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!

Foi com a mão? Foi.

Será que o árbitro Paulo César de Oliveira e a assistente Maria Elisa Barbosa tinham condições de ver que foi com a mão? Duvido.

Eu (tudo bem, tenho astigmatismo, isso embaça um pouco a vista) precisei de ver o replay em câmera lenta pra perceber se a bola tinha batido só na mão ou se havia batido na cabeça também. Portanto, nada além da hipocrasia pode dizer que foi um roubo descarado. Pelo contrário. Foi um roubo encoberto, digamos.

Agora, que nenhum fanático são-paulino esperava um time tão bem colocado em campo, ah, não venham me dizer que esperavam, porque é mentira. Eu mesma, antes do jogo, em tom de suspiro e sonho, falei para a minha mamãe: “Seria tão bom que o São Paulo ganhasse por 3 a 0, com três gols do Adriano… mas eu sei que isso não vai acontecer…”

E, quem diria, aos 5 minutos do segundo tempo, eu já gritava no sofá de casa: “Só falta um! Só falta um!”

A despeito do talentoso Adriano, com a mão e com o pé, o que mudou a cara são-paulina foi, em grande parte, a volta do Alex Silva. Um cara que estava parado havia cinco meses jogar do jeito que jogou… Ah! Que diferença é atuar com três zagueiros de verdade! Vale lembrar que no fatídico 4 a 1 da primeira fase, tínhamos dois defensores (André Dias e Miranda) e um arremedo de zagueiro chamado Juninho (sim, aquele que entrou na área cambaleando e derrubou o Kléber).

“Tem que ser parceiro na derrota também”

Podem falar o que quiserem: a cada dia, sou mais fã do Muricy. Sim, sim, falem que ele não consegue acertar o time rapidamente, que o São Paulo não joga bonito há três anos, que ele coloca meia na lateral, lateral na meia, que ele demora para fazer substituição, que ele é grosso com jornalista na entrevista coletiva… Ele é tudo isso, admito. Mas é um pouco mais que isso também.

Como uma pessoa vivente, Muricy tem (muitos) defeitos. Mas tem inúmeras qualidades: é um cara decente, honesto, que trabalha dignamente, valoriza a família e os amigos. E suporta, como poucos, as cornetas insuportáveis que trombeteiam no Morumbi. Ao contrário de muita gente por aí, que já teria recolhido o boné, que diante de uma superioridade falsa pensaria “eu não preciso passar por isso”, ele fica. Fica porque acredita no que faz. Porque gosta do que faz. Embora tenha dito ontem que, “cansado, de saco cheio”, não se emociona mais com o seu trabalho.

O que foi uma mentira deslavada. Claro que ele se emociona. Se emociona tanto que não consegue largar isso. E se emociona tanto em ver um Morumbi lotado, uma vitória suada, a torcida cantando, que também não consegue largar o São Paulo.

Coisa parecida que acontece, sei lá, com todo mundo que ama o que faz, e passa por cima das inúmeras adversidades que aparecem na nossa frente. Com uma diferença muito grande em relação ao trabalho do Muricy: ele é bem pago para fazer o seu trabalho. Eu não sou, você que está lendo não é, a enorme maioria dos trabalhadores deste País também não o são. Mas nem por isso desistimos do que amamos, certo?

Porque quem faz o que gosta, continua, espera, sonha e acha que o reconhecimento virá. Da mesma maneira que Muricy, também não temos parceiros na hora da derrota. “O técnico de futebol é muito sozinho”, disse ele, depois do primeiro título brasileiro, para logo depois chorar lembrando do apoio da esposa, Roseli. O jornalista também é muito sozinho - principalmente quando toma um furo ou faz o que pode e, para quem não está ali, no calor do momento, não é o suficiente. O bancário, o motorista de ônibus, o professor de natação… todos eles também são sozinhos no momento ruim. E, muitas vezes, ao contrário do Muricy, também não temos reconhecimento no momento da vitória. Mas e daí? Assim como Muricy, voltamos para casa todos os dias com o sentimento de trabalho realizado, da função cumprida, para desfrutar das nossas pequenas ou grandes vitórias para quem realmente dá valor. Nós e os nossos. E isso vale mais do que qualquer outra coisa.

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